Crítica | Tenet

 Crítica | Tenet

Em tempos que “multiverso” vem se tornando uma palavra comum no entretenimento, é bem interessante ver o diretor Christopher Nolan brincando com seus próprios conceitos de tempo e universo, de forma muito mais simples, mas ainda fascinante. E se em O Grande Truque o diretor já havia dissecado o conceito de “ilusionismo” — no sentido “mágico” da coisa —, é quase como se agora ele resolvesse criar seu próprio truque de mestre em Tenet, uma das obras mais cinematográficas de sua carreira. Afinal de contas, cinema é ilusão e o que Nolan realiza aqui é um simples truque. Bem filmado, divertido e visualmente impressionante, mas ainda um truque.

A trama de Tenet não é nada elaborado como possa parecer. Na verdade, é relativamente simples: o protagonista vivido por John David Washington é um espião que precisa evitar uma possível guerra mundial cujo início pode ocorrer no futuro. Evitando dar quaisquer detalhes sobre a história, o que se pode dizer é que Tenet não é uma obra sobre viagem no tempo. Como deixam claro logo nos primeiros 20 minutos — ou menos —, quando uma personagem explica o conceito, chamado de “inversão”. E conclui a explicação com um enfático “não tente entender”. E de fato, este é praticamente um recado do diretor para o público, já que o espectador que tentar juntar as peças pode fazê-lo sem muitas dificuldades, basta um pouco de atenção.

Nolan é conhecido — e até criticado — por trazer explicações demais em suas obras e em Tenet essa mania cobra seu preço, já que é possível antever uma ou outra surpresa do desfecho. Entretanto, não é nada como a verborragia de Interestelar. O modo como o diretor constrói o filme é bem mais meticuloso e até esta mania de “explicar” soa muito mais elegante, evitando recorrer à diálogos e preferindo realizar uma boa construção de cenas — até a performance do elenco — para complementar as informações de forma subjetiva. Sem dúvidas, um aspecto mais do que acertado. E por sinal, o diretor com certeza estava se divertindo bastante ao brincar com a inversão, já que ele cria um bom número de sequências de ação bem distintas — tiroteio, perseguição, luta corporal, etc — que, ao serem pontuadas com o conceito, tornam-se cenas de ação como nenhuma vista antes.

Eis aí o trunfo de Tenet: o filme é para ser visto no cinema, na maior tela possível. Todas as sequências de ação são incríveis e assistí-lo em IMAX, por exemplo, eleva ainda mais a experiência. Destaque para o clímax do filme que não apenas é muito bem filmado como também é uma das sequências mais interessantes do cinema de ação em anos. Entretanto, cabe apontar sobre a insistência do diretor em lançá-lo tão cedo. Não fosse isso, mais pessoas poderiam ter a chance de prestigiar a obra como ela deve ser prestigiada, o que é uma verdadeira pena, já que mesmo comparado à outros filmes do diretor, Tenet é algo único. 

Apesar de apresentar cenas visualmente impactantes, o mesmo não se pode dizer da trilha sonora de Ludwig Göransson em sua primeira parceria com o diretor. Ainda que seja positivo ver Nolan formando novas parcerias — Hans Zimmer compôs para seis dos últimos oito filmes do diretor —, a trilha não é marcante, principalmente após o ótimo trabalho de som realizado em Dunkirk, última colaboração da dupla até então.

Há, entretanto, um aspecto que se sobressai negativamente na obra. Christopher Nolan é um diretor de renome para a Warner e seus roteiros nunca são óbvios, sempre trazendo conceitos ou abordagens novas. Dessa forma, apesar de Tenet entregar um espetáculo visual — tal qual esperado do diretor —, fica a sensação de que faltou ousadia na parte narrativa. De fato, excetuando a parte da inversão, a trama não é muito diferente de uma meia dúzia de filmes da franquia James Bond, inclusive utilizando arquétipos clássicos de filmes de espionagem, como o protagonista que joga pelas regras, o parceiro que cuida dos gadgets e contatos, a mulher fatal e o vilão estrangeiro. Fica a torcida de que no futuro Nolan crie histórias à altura de conceitos tão fora da caixa como os conceitos que ele adora criar.

Tenet se atrapalha quando surge nos cinemas em meio à toda expectativa criada em cima deste, seja pelos nomes envolvidos — além de Christopher Nolan, há um elenco de peso que está muito bem, mesmo com um roteiro que exige dramaticamente pouco —, seja por ter sido a promessa de ser um dos grandes filmes do ano após inúmeros adiamentos. Mas tem um mérito muito significativo, pois em um ano dominado pelos streamings, é um filme mais que bem-vindo por lembrar ao público o valor de uma sala de cinema, que pode render experiências únicas como esta. 

Originalmente publicado em https://www.herdeironerd.com/ em 27 de outubro de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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