Crítica | Speed Racer

 Crítica | Speed Racer

Quem foi que disse que um filme galhofa não pode ser divertido? Aliás, extremamente divertido? Pois é exatamente o caso de Speed Racer, adaptação para os cinemas do anime sessentista de bastante sucesso. A obra veio pelas mãos das Irmãs Lilly e Lana Wachowski, as mesmas responsáveis pela trilogia Matrix e com certeza foi um choque para aqueles que esperavam por algo minimamente próximo do trabalho delas na trilogia. Isso porque Speed Racer é colorido, engraçado e otimista, quase uma antítese à trilogia protagonizada por Keanu Reeves, Carrie Anne-Moss e Laurence Fishburne, mas não por isso inferior. Pelo contrário, se o espectador for capaz de abraçar a proposta da obra, há uma boa chance de sair impressionado ao final dos créditos deste filme.

Aqui, somos apresentados ao personagem-título Speed Racer (Emile Hirsch). Fissurado por corridas desde cedo, o garoto é filho de Pops (John Goodman) um mecânico e projetista de carros de corrida e segue os passos do irmão mais velho, Rex (Scott Porter), que faleceu em um acidente — justamente — em uma corrida. Além deles, temos a mãe (Susan Sarandon), o irmão mais novo Gorducho (Paulie Litt) que sempre se mete em confusões com Zequinha, chimpanzé mascote da família. Também temos a namorada de Speed, Trixie (Christina Ricci) e Sparky (Kick Gurry), amigo da família e mecânico da equipe. Após se destacar nas pistas, o rapaz acaba se envolvendo em uma trama de conspiração e tornando-se alvo do bilionário Royalton (Roger Allam) e acaba encontrando no misterioso Corredor X (Matthew Fox) um aliado.

A trama não é exatamente elaborada, por assim dizer, mas traz sua boa dose de emoção. Entretanto o elemento que mais se destaca é certamente a linguagem visual composta pelas Wachowski, pois através dos inúmeros estilos e referências que a obra traz, o resultado visto em Speed Racer acaba por ser algo único. Não apenas por suas cores gritantes desde a sequência inicial, mas também pela sua mistura de estilos, como por exemplo, as cenas que homenageiam as animações japonesas — bastante pertinentes, já que a obra é adaptação direta de um anime — geralmente protagonizadas por Gorducho e Zequinha e também usando movimentos de câmera pouco comuns, vide a forma que a câmera pula do rosto de Trixie para o rosto de Speed em uma das sequências de corrida, através de zooms rápidos.

É justamente por isso que é facilmente entendível quem não consiga imergir na obra, que à primeira vista soa infantilizada demais, mas é impossível negar a ousadia das diretoras em seguir exatamente na linha oposta ao tom “sombrio e realista” que tomou o cinema de ficção dos últimos anos. Enquanto a maioria das obras buscava cada vez mais peso em suas tramas, Speed se abstém de qualquer pé no chão em prol de criar uma experiência que não apenas salte aos olhos, mas seja — por falta de palavras melhores — simplesmente insano. A sensação de assistir aos carros digladiando-se entre si com piruetas e truques dignos dos episódios mais ??? de Corrida Maluca — um dos pilotos tenta atirar uma colméia de abelhas em outro carro durante uma corrida — é incrível.

Não é a “falta de física” observada, por exemplo, na franquia Velozes e Furiosos onde os filmes ainda fingem se levar a sério. Speed Racer aceita que é uma adaptação de um desenho animado e brinca com a lógica de um, onde carros simplesmente podem saltar do chão em alta velocidade, girar em qualquer direção e depois aterrissar tranquilamente sobre quatro rodas e seguir com a corrida em pistas que parecem ser resultados de um desafio entre designers de produção, com cada pista mais elaborada que a outra. E por falar em designer de produção, um parabéns para quem recriou os veículos da animação, que são bastante fiéis aos desenhos originais.

O roteiro, pelo qual as Wachowski também são responsáveis, acerta na parte sentimental do filme, algo essencial para que entendamos o peso da morte de Rex e como isso afeta Speed e também Pops. O elenco, por sua vez, não apenas tem a química necessária — eles soam realmente como uma equipe e família — como surgem bastante confortáveis em cena: Hirsch cria um Speed determinado e heróico, mas humano, que ainda é devidamente fragilizado pela perda do irmão, Sarandon e Goodman são impecáveis como os pais protetores, mas incentivadores do filho — há um diálogo belíssimo entre Speed e sua mãe, bastante emocional —, enquanto Matthew Fox personifica um Corredor X que, apesar de também ter seu lado heróico, é bastante contrastante ao Speed de Hirsch. Vale apontar ainda que a obra acerta ao equilibrar os tons distintos dos personagens, como na sequência do hotel em que ninjas atacam — sim, ninjas — e temos uma montagem que junta, muito bem, um conflito mais apreensivo — com o corredor X — e um mais “engraçadinho” — com Speed —, sem que as cenas em si soem conflitantes.

Se há um aspecto que a obra peca, é na exposição por vezes exagerada, que passa a se tornar um problema quando atrapalha o ritmo da obra, principalmente no ato inicial onde há um volume alto de informações e personagens para apresentar. Os alívios cômicos funcionam, embora não sejam críveis — Speed realmente fez um trajeto quase todo, com saltos e piruetas, com Gorducho no porta-malas e ele não tem um arranhão —, mas mesmo com esses pequenos defeitos, sua corrida final absolve — quase — todos os pecados. Eis aí uma sequência simples e puramente brilhante, um embate com ares de Rocky vs Drago, da família vs a corporação. É aí que o Speed Racer das Wachowski crava seu lugar no pódio, seu auge, com um final extremamente melodramático. Mas funciona. E é lindo.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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