Crítica | Meninas Malvadas

 Crítica | Meninas Malvadas

É muito bom se surpreender com um filme inédito. Melhor ainda — e mais raro — é se surpreender com uma obra já familiar, como foi o caso de Meninas Malvadas (Mean Girls), filme de 2004 que já está no imaginário do público pelos diversos memes que surgiram com as frases ou momentos icônicos do filme. Ao revisitar a obra buscando um filme leve e descompromissado, foi uma surpresa me deparar com um roteiro brilhante escrito por Tina Fey, que não apenas estabelece uma trama bem interessante de ascensão e queda, mas cria uma das melhores vilãs do cinema contemporâneo: o mal em figura de gente Regina George (Rachel McAdams). É quase como um filme de máfia ao estilo Scorsese, mas situado no contexto do colegial americano.

Antes que a comparação da obra de um dos maiores cineastas vivos com um filme adolescente ofenda alguém, vamos nos permitir um olhar mais profundo para o texto de Tina Fey. A trama é contada do ponto de vista de Cady (Lindsay Lohan), aluna nova e que pisa em um colégio pela primeira vez em sua vida, já que antes morava com os pais na África e estudava em casa. Ao adentrar o mundo novo pela primeira vez, sofre o esperado choque de cultura onde “os adultos não confiam nos adolescentes e só gritam”, além de conhecer os diversos núcleos que compõem o habitat escolar, dentre eles, o grupo das poderosas, composto por Gretchen (Lacey Chabert), Karen (Amanda Seyfried) e, claro, Regina George, a “abelha rainha”.

Além da construção minuciosa da antagonista, Fey propõe uma estrutura de roteiro que traz o devido arco de ascensão e queda e cuja espinha dorsal do texto é uma narrativa de traições e delírio de poder. Temas familiares em obras como Cassino (Casino) e O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), mas raros — possivelmente inéditos — quando inseridos no contexto de filmes adolescentes, pelo menos da forma como utilizado aqui. E mesmo assim, trabalhados de forma bastante coesa por Fey, que também insere em seu subtexto temas como sororidade e feminismo, tudo envolto de uma uma boa dose de ironia, principalmente nas cenas em que Cady compara o comportamento dos adolescentes com os animais na selva.

A direção e montagem dão um bom ritmo à obra, que consegue estabelecer o mundo das garotas sem deixar a obra cair nos estereótipos comuns do subgênero, ainda que certos clichês — como o romance adolescente — estejam presentes na trama. Além disso, a obra trata de dar um ar cool as gags que dão o tom do filme, como por exemplo as sequências de chamadas de telefone compartilhadas entre o grupo, onde as garotas dividem a tela enquanto trocam linhas de diálogos de forma bastante ágil, traduzindo visualmente um pouco da complexidade que é este mundo das Poderosas, mas sem se tornar enfadonho e tampouco virando uma paródia.

O já citado elenco principal, composto pelo quarteto Lohan, McAdams, Chambert e Seyfried não apenas funcionam muito bem em tela, como possuem uma química incrível entre si, algo que eleva ainda mais a — já alta — qualidade dos diálogos. Não é difícil entender como tantas cenas tornaram-se icônicas, sendo lembradas e gerando memes mesmo passados 16 anos após o lançamento do filme. Lohan consegue conduzir muito bem a jornada de sua personagem sem que soe forçada e McAdams equilibra o rostinho bonito com um alto nível de deboche, dando vida a uma Regina George apaixonantemente maligna. Lizzy Caplan e Daniel Franzese surgem em papéis coadjuvantes, mas com boa presença em cena, além da própria Tina Fey que integra o elenco com seu timing cômico impecável e Amy Poehler, que rouba todas as cenas em que aparece como a mãe “descolada” de Regina.

Com um texto afiado e vilã icônica, Tina Fey e o diretor Mark Waters criaram em Meninas Malvadas uma das obras mais divertidas e fascinantes dos anos 2000, que disfarça-se de “mais um filme adolescente”, mas vai muito além disso, não apenas conseguindo um lugar de destaque dentro de seu subgênero como também abusando da acidez para realizar uma bem-vinda crítica ao comportamento adolescente — seu público-alvo, por sinal —, além de abordar muito bem temas bastante pertinentes e atuais. Assim, consagrando-se não apenas como um ótimo filme para novos públicos, mas também se mantém como uma ótima pedida para o público que resolver revisitá-lo.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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