Crítica | Power

 Crítica | Power

Enquanto as salas de cinema gradualmente foram tomadas de sucessos milionários que tornaram-se franquias praticamente inextinguíveis, as plataformas de streaming não apenas foram ganhando maior notoriedade como instaurou-se uma “guerra de streamings”. E com os estúdios de anos de vida criando plataformas próprias com dezenas de obras para preencher seu catálogo, resta as pioneiras do formato — mas relativamente novatas enquanto produtoras em si — correrem atrás do prejuízo para não perder no próprio jogo. E com isso, obras como Power (Project Power), da dupla Henry Joost e Ariel Schulman tornam-se cada vez mais comuns, frutos de uma “linha de produção” criativa que visa preencher catálogos antes cheios de obras consagradas, clássicas ou contemporâneas.

Na obra, uma nova droga passa a circular nas ruas de Nova Orleans e aqueles que a tomam ganham super-poderes por cinco minutos. Cada pessoa tem um poder diferente — só descoberto após ela tomar a droga —, mas também pode acabar morrendo ao se arriscar na brincadeira. Como o efeito é aleatório, vai da sorte de cada um que se arrisca. Conforme a droga passa a se espalhar, causando o devido caos que se pode esperar com pessoas aleatórias dotadas de habilidades aleatórias, o caminho de uma traficante (Dominique Fishback), um ex-militar (Jamie Foxx) e um policial (Joseph Gordon-Levitt) se cruzam.

O roteirista Mattson Tomlin — do vindouro The Batman — acerta por não buscar grandes feitos aqui. Sua obra constitui-se de conceitos simples, que funcionam dentro da proposta e nunca se levam a sério demais. Existem inofensivas convenções de roteiro aqui e ali — quão conveniente é um policial despertar o poder de ser a prova de balas, por exemplo? —, mas sequer chega perto de atrapalhar a experiência. Pelo contrário, é justamente na hora que o filme abraça alguns dos clichês do subgênero que surgem alguns dos melhores momentos, como a cena protagonizada por Rodrigo Santoro na virada do segundo para o terceiro ato.

Além disso, Joost e Schulam possuem dificuldades em sua direção para conseguirem atribuir o devido peso ao filme. Enquanto nas sequências iniciais, a obra parece encaminhar-se para um drama urbano com aspectos de crítica social, abordando não apenas a desigualdade que empurra uma jovem para o lado do crime, mas também a influência política nas atuações da polícia — que soa como a única justificativa para o personagem de Joseph Gordon-Levitt estar presente na obra —, não tarda para que o filme se assuma como um longa de ação mais descompromissado. Nenhuma das duas abordagens são certas ou erradas, mas quando colocadas lado a lado por uma montagem levemente apressada, simplesmente não se conversam.

Isso fica claro, por exemplo, quando voltamos as atenções para a primeira sequência de ação protagonizada por Art (Foxx) e para o conflito final: o primeiro acontece em uma espécie de “favela americana” e possui uma estética que lembra longas como Dia de Treinamento. O conflito final, entretanto, tem a devida produção de um espetáculo — só faltou o risco do mundo ser destruído por um raio azul atirando para o céu —, com um clímax exagerado. O terceiro ato, por sinal, ainda sofre por passar por um twist digno de um videogame, com um chefão de fase saindo de cena para outro surgir no lugar, sem nenhum desenvolvimento. O personagem em questão apenas surge.

Desta forma, falta à Power uma unidade que faça seus diferentes aspectos conversarem entre si. Essa ausência é notada até mesmo entre o bom trio principal. Os três personagens são interessantes, mas suas tramas não se encaixam por boa parte do filme. Enquanto Foxx e principalmente Fishback sustentam o andamento do filme, Gordon-Levitt sai perdendo uma vez que seu personagem praticamente não importa. Além disso, a direção da dupla Joost e Schulman também é cheia de altos e baixos, com cenas de ação em sua maioria mal-executadas, como a luta no subsolo da boate, que poderia ter sido uma das grandes sequências do filme, mas os diretores optaram por escondê-la quase completamente através de um vidro.

Power não possui problemas suficientes para ser classificado como um filme ruim. Entretanto, seus méritos também não fazem com que ele se destaque — méritos que, por sinal, remetem a outros filmes com o mesmo aspecto heróis urbanos, como Heróis (Push) e Dredd —, ficando justamente perdido no meio de um sem-número de obras novas que chegam aos montes nos streamings todo mês. Eis aí o perigo do modelo “linha de produção” citado no primeiro parágrafo: obras como Power já perderam seu lugar no cinema, mas pouco a pouco perdem força em sua própria zona de conforto, mesmo quando surgem com conceitos interessantes — e até originais — como é o caso aqui. E é infeliz constatar como boas ideias podem simplesmente desaparecer neste processo, mesmo que gerem filmes rapidamente divertidos como este.

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 31 de agosto de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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