Crítica | Palm Springs

 Crítica | Palm Springs

É interessante quando pensamos no efeito quarentena — o tempo passa enquanto os dias são, em suma, iguais —, ainda mais quando se trata do conteúdo que consumimos. Principalmente na era da informação, onde somos bombardeados de lives nas redes sociais e os streamings, na ausência dos cinemas, lutam pela nossa atenção — e dinheiro — com um sem-número de produções, desde as mais simples até aquelas que visam sair do lugar comum para atingir um público mais “exigente” ou até mesmo um lugar em premiações futuras. Palm Springs, do diretor Max Barbakow está no exato meio termo: a obra chamou atenção no festival de Sundance no início do ano, mas também possui uma simplicidade no roteiro que faz com que ela seja de fácil consumo para qualquer público, pois se trata basicamente de uma comédia romântica.

Não apenas isso, mas Palm Springs teve um timing como poucos, justamente por chegar à plataforma do Hulu no meio da quarentena. Isso por que a comédia romântica estrelada por Andy Samberg e Cristin Milioti — mostrando que um casting preciso pode fazer milagres — tem outro ponto importante no roteiro: um looping temporal a lá Feitiço do Tempo que faz com que ambos revivam o mesmo dia várias vezes. Em um momento onde o público — ou parte dele — provavelmente está com esta mesma sensação, a obra tem a vantagem de criar uma identificação instantânea com o ‘drama’ dos protagonistas, que assim como o espectador, se veem obrigados a viver experiências cíclicas em um período tão longo que é fácil perder a noção do tempo — são dias, meses, anos? — e sem expectativa para que tudo volte ao normal.

Palm Springs

Na obra, Nyles (Samberg) e Sarah (Milioti) se conhecem em uma festa de casamento na qual nenhum dos dois sentem-se verdadeiramente à vontade. Após curtirem a festa juntos, Sarah acaba presa no looping — que ocorre no dia do casamento — e descobre que Nyles já está naquela rotina, sendo que ele mesmo não sabe mais dizer há quanto tempo. A partir daí, o roteiro de Andy Siara segue a proposta evitando alguns clichês batidos — a tabela padrão do personagem descobrindo sua situação sem acreditar para depois tentar sair do looping — e substituindo-os por outros clichês, tão batidos quanto. Logo, a obra segue a lógica esperada de uma comédia romântica onde duas pessoas são obrigadas a conviver juntas até que, eventualmente, surja alguma química entre ambos.

Sem dúvidas o grande triunfo de Palm Springs é sua dupla protagonista, o timing de Samberg e Milioti, assim como a dinâmica entre ambos, beira o impecável. E isso ressalta as qualidades do roteiro que tem bons momentos cômicos que por vezes caem para uma galhofa exagerada, mas não se perdem justamente pelo talento do elenco. Samberg mantém o nonsense do texto com sua ingenuidade usual, mas é Milioti quem tem um arco minimamente interessante na obra. Não apenas em roteiro, mas sua interpretação constrói a devida profundidade para Sarah que precisa lidar com os conflitos de estar presa no mesmo dia sem perder a comicidade proposta pelo filme. O longa ainda conta com a presença de J.K. Simmons, que rende bons momentos, mas acaba subaproveitado na maior parte da obra.

Palm Springs

Para dar um ar ainda mais lúdico para a obra, está a acertada cinematografía de Quyen Tran, que aposta majoritariamente em uma iluminação clara e cores bastante fortes — nas cenas diurnas, que dominam a obra —, ilustrando o cenário paradisíaco quase como um desenho animado. Por sinal, uma boa analogia, já que assim como em uma animação mais voltada para o público infantil, as ações tomadas pelos personagens não trazem consequências para a dupla, o que torna a jornada um tanto vazia — não é preciso pensar muito para entender os furos de roteiro e como eles poderiam ser usados a favor dos personagens. Entretanto, não é um forte demérito, visto que Palm Springs desde o início não se propõe a levar-se a sério, tornando tudo uma aventura bastante inofensiva e priorizando a sensação de conforto 

Max Barbakow realiza em Palm Springs uma comédia romântica bastante carismática, mas ainda assim clichê. A impressão que fica é que a produção é um mais do mesmo com um certo sabor extra devido à expectativa criada nos minutos iniciais e “surpreendendo” pela adição do looping temporal. Vale pelo descompromisso — o público pode assistir sem pensar muito — e principalmente pela dupla protagonista, porém não vai muito além do que se propõe no primeiro ato, contentando-se em permanecer na segurança de risadas fáceis, mas cuja falta de ousadia impede que se torne verdadeiramente marcante. 

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 28 de julho de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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