Crítica | The Old Guard

 Crítica | The Old Guard

É impossível negar que há alguns anos, o modus operandi de Hollywood são as franquias — prova disso é que o conceito de trilogia praticamente foi extinto — e, portanto, a viabilidade de novos projetos está intrinsecamente ligado ao seu potencial de gerar continuações. Some isso a um nome de peso na obra — protagonizando ou dirigindo — e você tem um sucesso em potencial. Entretanto, em The Old Guard, nem mesmo o carisma e presença de Charlize Theron são capazes de tornar possível ignorar a tentativa desesperada de fazer com que a adaptação dos quadrinhos da Image Comics seja o próximo grande sucesso com um sem-fim de continuações. Ainda assim, seria bom se este fosse o maior dos problemas.

Em The Old Guard, Charlize interpreta uma guerreira imortal que lidera um grupo — também imortal — que protege a humanidade desde eras remotas. Já nos dias atuais, acabam alvos de um milionário da indústria farmacêutica que pretende entender e produtizar a imortalidade do grupo. O roteiro — adaptado pelo próprio autor dos quadrinhos Greg Rucka — é eficaz em introduzir o grupo mesmo que, em tese, não exista situação de vulnerabilidade para eles — é comum que obras de ficção tenham dificuldade de criar conflitos plausíveis para personagens muito poderosos —, mas falha em outros aspectos. Não há, por exemplo, uma motivação clara para justificar milênios de luta pela humanidade — senso de justiça? Dinheiro? — ou mesmo se há um livre arbítrio envolvido — eles podem optar parar de lutar? Embora alguns diálogos no terceiro ato tentem contornar esse ponto — de forma nada sutil —, os ideais dos personagens soam vazios, já que em suma se trata da própria preservação.

Ao optar por não aprofundar essas questões que poderiam gerar inúmeros desdobramentos e questionamentos interessantes, Rucka limita os conflitos internos dos protagonistas ao dilema “enquanto somos imortais, todos que amamos se vão”, repetido à exaustão em obras do gênero. Pior ainda, a decisão soa como uma forma de manter a obra mais palatável, ou seja, fazer com ela seja mais genérica possível. Outro aspecto que contribui para essa sensação é a insistência de diálogos expositivos, a ponto de permitir que o espectador que preste atenção seja capaz de prever muitos dos desdobramentos da obra. Nesse ponto, não apenas o desfecho é comprometido — frustrando quaisquer tentativas de reviravoltas —, mas também a lógica a “surpresa” de uma continuação, já que lá pela metade do filme já é possível entender qual será a trama do segundo filme.

Com uma filmografia mais voltada para dramas ou romances, a diretora Gina Prince-Bythewood acaba não entregando um trabalho satisfatório nesta sua primeira empreitada em uma obra de ação, principalmente considerando que a própria Netflix distribuiu o ótimo Resgate há poucos meses. Falta criatividade para elaborar sequências realmente marcantes, sendo que o único momento que se destaca neste aspecto é a cena do avião protagonizada por Andy (Theron) e Nile (KiKi Layne). Isso considerando que a trama é mais elaborada que o filme estrelado por Chris Hemsworth, além de ser protagonizada por personagens que não possuem risco de vida, o que poderia ser um fator de mais liberdade por permitir sequências mais ousadas. 

A força de The Old Guard recai mesmo em seu elenco: além de Charlize Theron, Chiwetel Ejiofor surge como um dos coadjuvantes mais interessantes que os próprios imortais, como um personagem que carrega consigo uma grande culpa e quer fazer algo de bom para a humanidade, ainda que recorrendo a ações questionáveis. Já KiKi Layne veste bem sua personagem de forma determinada, mas não necessariamente a transformando em alguém fria. Já Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli) fazem um casal cheio de carisma que, infelizmente, não tem o desenvolvimento merecido. A diversidade dos protagonistas, aliás, é também um acerto narrativo: com imortais surgindo durante as eras, seria no mínimo ridículo que todos viessem do mesmo lugar do planeta. No mais, a mitologia apresentada na obra não deixa de ser interessante, mas deveria ser melhor explorada por Rucka: no final, fica a sensação de que o autor-roteirista criou uma obra que precisa do complemento dos quadrinhos, não bastando como um filme por si só.

The Old Guard é uma obra que não soa totalmente desperdiçada, mas que falha pela forma cômoda com que trata sua mitologia — que por si só, tem potencial para gerar uma adaptação muito mais interessante e ousada —, além de pesar a mão na exposição, tornando sua trama não apenas clichê, mas muito previsível. A direção de Gina Prince-Bythewood não impressiona, mas mostra potencial — a já citada cena do avião é um exemplo — e, com sorte, será melhor na continuação, que por hora é a única certeza já que até mesmo a “cena pós-créditos” não pode esperar pelos créditos, pois é importante deixar claro que uma “parte 2” está nos planos. Como se a obra em si já não fosse suficientemente clara. E tudo bem, contanto que façam valer o tempo do espectador, pois diferente dos personagens, não somos imortais…

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 13 de julho de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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