Crítica | Destacamento Blood

 Crítica | Destacamento Blood

O cinema de Spike Lee é inegavelmente um cinema violento. Não a violência fetichista e estilizada — e arrisco a dizer, às vezes divertida — costumeira de Hollywood, apostando em uma abordagem mais pesada, até mesmo dolorosa para a violência e suas consequências. Muitas vezes em suas obras, mesmo sem mostrar uma gota de sangue, Lee consegue fazer o espectador se sentir desconfortável pelo simples fato de seu cinema ser violentamente real.

A mais nova obra do diretor, dirigida em parceria com a NetflixDestacamento Blood (Da 5 Blood) conta a história de um grupo de veteranos da guerra do Vietnã que resolvem retornar para o país nos dias de hoje a fim de buscarem os restos mortais de um companheiro de guerra e barras de ouro que foram encontradas pelo grupo na época da conflito, mas que não puderam trazer consigo antes. Dessa forma, Spike Lee não apenas constrói uma obra sobre a legitimidade da guerra, mas um preciso estudo de personagem ao fazer com que seus protagonistas retornem à este inferno pessoal, obrigando-os a encarar — e exorcizar — seus próprios demônios.

Após uma boa introdução onde entendemos melhor quem é quem — apesar de claramente haver maior destaque para a dupla Paul (Delroy Lindo) e Otis (Clarke Peters) — e que apresenta bem o tom da obra com a acidez esperada de Lee, os Bloods adentram a floresta em busca de seu objetivo. É nesse ponto em que vemos a obra se fragmentar um pouco, com a introdução de personagens secundários pouco relevantes e uma leve “barriga” no roteiro. Leve, pois mesmo nesses momentos, há espaço para bons diálogos que ajudam o espectador a entender melhor aqueles personagens, por vezes deixando claro que a motivação de parte do grupo não é tão simples quanto possa parecer à primeira vista, a exemplo dos diálogos de Paul, o personagem mais complexo da obra.

Inclusive, Delroy Lindo é o ator que domina a obra como ninguém. Sua atuação é dotada de uma intensidade rara, construindo um personagem profundo e cativante, que consegue conquistar o espectador mesmo quando suas decisões não são as melhores — o que não necessariamente é uma novidade no cinema do diretor, que raramente opta por criar personagens simplesmente maniqueístas — visto que seu personagem é muito mais movido por suas emoções e, consequentemente, pelos traumas que carrega consigo. As sequências em que o ator está presente são as melhores do filme, incluindo aí um momento específico no qual Lindo discursa um monólogo no meio da selva que se sobressai ao restante da obra.

Por sua vez, Spike Lee não é um diretor de “meias-palavras”, tampouco um amador quando se trata da técnica. Recursos que em outras mãos poderiam deixar a obra com uma sensação de “fácil”, são usados pelo diretor a fim de elevar a experiência sensorial. Há, por exemplo, um alto número de flashbacks colocados aqui e que, à primeira vista, podem soar como um recurso para facilitar a narrativa. Muito pelo contrário. Lee não se contenta em apenas inserir as sequências da guerra, mas evidencia isso mudando o aspecto da tela — do costumeiro 16:9 para o 4:3, formato mais quadrado que lembra televisores antigos — de forma nada sutil. Não basta mostrar que aquelas memórias são bastante desconfortáveis para aqueles homens, Lee traduz visualmente esse desconforto sem a necessidade de recorrer a cenas expositivas.

Ainda nos flashbacks, Lee tem um acerto intrigante nessas sequências, optando por realizá-las com o mesmo elenco mais velho que protagoniza as cenas contemporâneas, com a adição de Chadwick Boseman no papel de Stormin’ Norman, o soldado que faleceu durante o conflito e que os Bloods buscam os restos mortais. A última memória que esses homens mantém de seu irmão de guerra é a de um homem no auge de sua vida, pois infelizmente ele se foi muito jovem. Tal decisão criativa não apenas é interessante quanto pertinente: em uma época em que vemos um alto número de jovens negros que são assassinados em conflitos ou por causa de preconceitos estúpidos, quantas famílias não são “condenadas” a lembrar de seus entes queridos da mesma forma? Restam, para os que ficam, a última lembrança de jovens adultos, adolescentes e até crianças, pessoas que nunca poderão desfrutar de sua vida plenamente.

Assim como em Infiltrado na Klan, Lee insere cirurgicamente imagens de arquivo para fins de contextualização — seja a fim de deixar mais claro o impacto da guerra, seja para contextualizar momentos humorísticos, como os poucos segundos com um discurso de Donald Trump durante uma das sequências iniciais —, além de utilizar cenas com uma radialista vietnamita para trazer as músicas que quer para dentro da trama — tão importantes para criação da atmosfera — e até quebrando a quarta parede quando é conveniente. Apesar da estilização do diretor se fazer presente nessas características, a obra mantém seu ritmo constante, o que não apenas demonstra o domínio sobre a linguagem de Lee, mas também o ótimo trabalho do montador Adam Gough, que já trabalhara na Netflix em outra grande obra da plataforma: Roma, de Alfonso Cuarón.

Cirúrgico e intenso como o esperado, Spike Lee faz de seu Destacamento Blood, não apenas uma das obras mais interessantes do ano, mas também uma das mais pertinentes dado o contexto sócio-político na época de seu lançamento. Mas não apenas isso, a obra é também um exemplar de como Lee sabe fazer cinema, evitando erros fáceis dos gêneros em que se propõe, mas sempre empregando sua própria visão de mundo em obras com uma clara — e bem-vinda — assinatura.

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 13 de julho de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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