10 filmes internacionais para quem quer sair da mesmice

 10 filmes internacionais para quem quer sair da mesmice

Eu vou ser completamente sincero quando eu digo que entendo quem reclama do cinema contemporâneo. Embora eu seja um fã de carteirinha do cinema blockbuster realizado pelo Marvel Studios nos últimos anos, ou mesmo de produções mais fáceis de consumir como algumas comédias mais simples, eu realmente entendo quem olha para os filmes em cartaz no cinema — ou no streaming, pois se possível, fiquemos em casa né? — e pensa “cadê a novidade?”.

E vamos admitir que mesmo olhar para trás, para o cinema dos anos 2000, 90, 80 ou antes, acaba fortalecendo a noção de que Hollywood empacou criativamente. Mas se por um lado isso pode ser verdade — o que não significa que o próximo Vingadores ou Star Wars vá ser ruim —, o cinema como um todo jamais empacou criativamente e a prova disso é o nosso atual ganhador de melhor filme, o absurdamente interessante Parasita (Gisaengchung) que fez história sendo o primeiro filme de língua não-inglesa a levar o maior prêmio da noite. 

E eu citei sim a obra de Bong Joon-ho porque hoje, meus caros, vamos falar de cinema estrangeiro (do ponto de vista dos EUA, ok?). E por hoje, vamos deixar o cinema nacional um pouquinho de lado — se vocês quiserem, quem sabe numa próxima — e vamos falar de obras que estão além da nossa atual zona de conforto, que vão nos levar à lugares novos, diferentes do nosso país verdadeiro ou do nosso cenário comum, que são os EUA e sua Hollywood. 

Akira

(1988)

A animação Akira está para os animes no ocidente como Batman: O Cavaleiro das Trevas está para os quadrinhos. Explico: enquanto os quadrinhos de Frank Miller foram — um dos — responsáveis por quebrar a barreira dos “gibis são para crianças”, Akira, ainda que não fosse o primeiro anime a chegar no ocidente, com certeza foi o responsável por abrir alas para que personagens como Goku e Vegeta pudessem fazer mercado, mas principalmente por mostrar que ‘desenho’ não precisava ser coisa de criança.

A animação japonesa de ficção-científica cyberpunk que precedeu grandes obras como the Matrix e outros mais contemporâneos como Poder Sem Limites e A Origem traz o cenário distópico de Neo Tóquio, onde o jovem Kaneda e sua gangue precisam impedir que Tetsuo, seu amigo de infância, ceda a seus poderes telepáticos e se transforme no perigoso ‘Akira’.

Ainda hoje celebrado pelo seu visual incrível, completamente inovador para a época de sua produção, Akira se mantém relevante na cultura pop, influenciando um sem-fim de obras do gênero, mas também como sendo um dos grandes responsáveis pela explosão de animes que, ainda hoje, tem seu público fiel no ocidente.

Akira está disponível no Telecine Play.

Dente Canino

(Kynodontas, 2009)

O grego Yorgos Lanthimos é facilmente um dos diretores mais fascinantes dos últimos anos. Seu estilo peculiar de contar histórias aliado ao seu senso crítico deliciosamente ácido já garantiram ao diretor quatro indicações ao Oscar, sendo a primeira em 2010 na categoria de filme estrangeiro justamente com Dente Canino. E embora esteja longe de ser sua melhor obra, é interessante começar a revirar sua filmografia por ele, um de seus primeiros filmes, que já deixa claro a que veio o diretor.

Sua falta de sutileza — característica que viria a ser lapidada nos seus projetos posteriores — chama atenção nessa releitura cínica do mito da caverna de platão, onde um casal cria seus filhos isolados do mundo, mantendo sua inocência intacta dentro de uma residência de luxo. Para eles, é prometido que poderão conhecer o mundo “quando o dente canino cair”. Mas o que acontece quando as crianças se cansam de esperar?

Ainda que um tanto óbvia em sua proposta, a obra serve de fato para abrir as portas de uma filmografia intrigante e única, que com certeza será diferente de tudo (ou quase tudo) que o espectador irá presenciar.

Dente Canino está disponível no Telecine Play.

Relatos Selvagens

(Relatos Salvajes, 2014)

Ah, a intensidade… O argentino Relatos Selvagens com certeza é um dos melhores filmes de sua ‘safra’. Sua proposta, elegantemente simples, elabora o questionamento do famoso “dia ruim”, aquele acontecimento, grande ou pequeno, que pode levar qualquer pessoa à loucura. E que loucura deliciosa de se assistir.

Contado em forma de antologia, isso é, com seis curtas independentes entre si ligados apenas pelo seu tema, Relatos narra suas seis histórias com um sarcasmo preciso, que diverte de forma incômoda justamente por sua imprevisibilidade. Acredite, os rumos de suas histórias são tão intrigantes quanto inesperadas, desde seus primeiros minutos até a maravilhosa sequência final.

Os destaques vão para as sequências Bombinha, onde o engenheiro Símon (Ricardo Darín, maravilhoso) tem seu carro rebocado diversas vezes, e Até que a Morte nos Separe, protagonizado por uma noiva (Érica Rivas) durante sua festa de casamento. Sensacional.

The Square: A Arte da Discórdia

(Rutan, 2017)

Quão subjetiva pode ser a arte? Assim como o papo lá do primeiro parágrafo, arte pode ser tão subjetiva quanto achar que a Marvel não é cinema de verdade, ainda que emocione e movimenta milhões de pessoas aos cinemas. Esse debate está no centro de The Square: A Arte da Discórdia, do diretor sueco Ruben Östlund.

A obra narra a história de Christian (Claes Bang), um curador de um museu em meio a uma crise pessoal e profissional, enquanto brinca com as alegorias da própria subjetividade da arte, que pode surgir de uma forma literal ou não. Ao brincar com sua alegoria, o diretor traça uma crítica à elite intelectual e sua hipocrisia, provocando risadas constrangedoras em boa parte de sua minutagem.

Afinal de contas, eis um filme de arte! Ou não…

The Square: A Arte da Discórdia está disponível no Telecine Play.

Dor e Glória

(Dolor y Glória, 2019)

A filmografia do diretor espanhol Pedro Almodóvar fala alto por si só, eu poderia REALMENTE trazer qualquer obra dele ou mesmo reservar o espaço para trazer 10 filmes retirados apenas de sua filmografia, mas optei por trazer Dor e Glória como representante do diretor à lista. E por que? Simples, a obra é um exercício metalinguístico, uma auto-homenagem por Almodóvar para Almodóvar. E é incrível, por sinal.

Aqui, Almodóvar nos apresenta a Salvador (Antonio Banderas), cineasta que já passou do seu auge, que vive com diversas dores físicas e emocionais, buscando fazer as pazes consigo mesmo e seu próprio passado. Daí, acompanhamos um pouco de suas memórias: sua infância, seus amores, sua carreira. É uma obra tocante e poética, que pode agradar mais aqueles que estão habituados à filmografia do diretor, mas não perde sua beleza caso seja a porta de entrada de novos espectadores.

Dor e Glória está disponível no Telecine Play.

A Viagem de Chihiro

(Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001)

Em 2020 é difícil imaginar que o Studio Ghibli não seja conhecido pelo grande público. Mesmo aqueles que não se aventuraram pelas obras do mestre Hayao Miyazaki, devem ter ouvido falar de algumas obras, principalmente as mais conhecidas Meu Amigo Totoro e, claro, A Viagem de Chihiro, obra que encantou o mundo inteiro e ganhou destaque em diversas listas dos maiores filmes da história, principalmente dentro do seu gênero.

Sendo uma daquelas obras que consegue transitar encantando crianças e adultos — arrisco a dizer que mais os adultos, pelo seu tom filosófico e levemente sombrio —, A Viagem de Chihiro narra as aventuras da garota Chihiro que se muda com seus pais para uma nova cidade. Perdidos, acabam presos no mundo dos espíritos onde a garota precisará dar um jeito de resgatar sua liberdade da bruxa Yubaba e salvar seus pais que foram transformado em porcos.

Belo e com camadas suficientes para serem descobertas em uma segunda, terceira, quarta revisão, etc, A Viagem de Chihiro é uma das grandes obras que rodou mundo afora, sendo responsável por apresentar o Studio Ghibli a mais de uma geração ocidental.

A Viagem de Chihiro está disponível na Netflix.

[REC]

(2007)

Se há um gênero que sofre quando falamos do “desgaste” sofrido em Hollywood, é o terror. Mesmo os mais inteligentes e subversivos filmes de terror americanos costumam cair em armadilhas comuns e, em maior ou menor grau, soam derivativos de outras obras, clássicos principalmente. E é exatamente este gênero que consegue ser construído e desconstruído com maestria por cineastas mundo afora. O incrivelmente simples [REC] é prova disso.

Sendo um exemplar do cinema espanhol — que nos deu grandes nomes como Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro, este último também diretor de filmes terror —, a obra de Jaume Balagueró e Paco Plaza é responsável por trazer alguns subgêneros de volta ao auge, criando uma nova onda de filmes de ‘found footage’ — a “câmera na mão” — e de filmes de zumbis, sendo inclusive tido como o melhor filme de zumbi dos últimos anos — isso até ser ‘desbancado’ pelo sulcoreano Train to Busan. A obra chegou a ganhar um remake americano — Quarentena — e tres continuações. Nenhuma aos pés da original, no entretanto.

[REC] se passa em uma noite quando a repórter Angela Vidal (Manuela Velasco) está fazendo uma reportagem sobre a rotina dos bombeiros, quando um chamado acaba arrastando a repórter, seu câmera e um grupo de bombeiros para um prédio cheio de infectados por um novo vírus. Claustrofóbico, assustador e incrivelmente bem filmado, [REC] ainda é um dos grandes expoentes do cinema de terror espanhol e vale ser lembrado e revisitado pelos amantes de um bom terror.

[REC] está disponível no Amazon Prime Video.

Eu Não Sou um Homem Fácil

(Je Ne Suis Pas un Homme Facile, 2018)

O cinema francês é dotado de obras interessantes, afinal de contas, é o berço do cinema. E diante de inúmeros clássicos — alguns contemporâneos, como o cativante Amélie —, resolvi trazer com esta comédia uma indicação menos “clichê” e que pode mostrar como conceitos batidos podem ser transformados em algo novo nas mãos dos cineastas certos.

Isso porque a obra da diretora Éléonore Pourriat é a típica comédia de situação onde um protagonista ‘troca’ de lugar com alguém para aprender empatia. Aqui, entretanto, o conceito vai além de uma troca de corpos ou algo parecido: após bater a cabeça, o protagonista Damien (Vincent Elbaz), homem tipicamente machista que coleciona conquistas acorda em um mundo onde os papéis das mulheres e homens estão trocados. Agora, elas são as conquistadoras e os homens sofrem para ter igualdade no trabalho, nas relações, para não serem tratados como “homens fáceis, que não se dão ao respeito”.

Apesar de flertar com clichês — não deixa de ser uma comédia romântica —, a obra de Pourriat se mantém divertida enquanto provoca aquela reflexão no espectador (homem) sobre seu papel na sociedade, através de um roteiro bem escrito que detalha bem a desigualdade entre os gêneros, mas invertida. Isso tudo sem deixar a leveza de lado e tornar-se um filme pesado demais, mantendo-se facilmente acessível para o espectador que quer um divertimento fácil, mas que acabará se deparando com algo mais.

Eu Não Sou um Homem Fácil está disponível na Netflix.

Boa Noite Mamãe

(Ich seh, Ich seh, 2014)

Outro subgênero que ganhou bons exemplares nos últimos anos foi o terror “psicológico”, aquele que não precisa criar ameaças sobrenaturais ou assassinos imortais para conquistar o público. Aqui, menos é mais e o austríaco Boa Noite Mamãe mostra isso muito bem ao construir uma atmosfera instigante por si só.

Na trama, uma mãe que acabara de passar por cirurgias plásticas e tem seu rosto enfaixado pelas bandagens mora em uma casa afastada com seus dois filhos gêmeos, mas os garotos passam a suspeitar de que ela não é quem diz ser. A atmosfera de perigo constante, aliados à curiosidade de saber o que está acontecendo e uma reviravolta precisa constróem uma obra bastante interessante que, embora se perca no terceiro ato, vale ser conferida pela inventividade.

Boa Noite Mamãe está disponível no Telecine Play.

Sem Amor

(Nelyubov, 2017)

O fim de nossa lista, chegamos ao frio e calculista filme russo que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018, Sem Amor dirigido por Andrey Zvyagintsev. A construção da obra, desde seu roteiro até sua fotografia em tons de cinza faz o trabalho de inserir o espectador daquela realidade dura, frio demais para uma criança cujos pais não o amam mais.

Zvyagintsev filma com elegância, criando vários momentos belos de se ver, mas que retratam a falta de emoção proposta pela obra. Não é um filme complexo, mas exige bastante paciência do espectador, principalmente pelo seu desenvolvimento lento e cheio de diálogos. E ainda assim, bastante interessante para o espectador que busca um bom filme de drama sem os clichês do gênero.

Sem Amor está disponível no HBO go.

Originalmente publicado em https://turnmundonerd.com.br em 9 de junho de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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