Crítica | Resgate

 Crítica | Resgate

Há um aspecto interessante do cinema de ação, onde muitos filmes podem – justamente? – ser acusados por seus roteiros simples demais, onde a história fica em segundo plano, sendo apenas uma justificativa para que cenas de ação elaboradas sejam criadas em cima de tramas rasas. Enquanto alguns se arriscam em tecer camadas mais profundas em seu roteiro – como o amado Mad Max: Estrada da Fúria – outros preferem apostar todas as fichas nas sequências de ação. Não cabe aqui cravar o que é certo ou errado, já que não se pode determinar uma fórmula única para o cinema, mas é fato que o filme do estreante Sam Hargrave prefere seguir a segunda opção. E felizmente, Resgate (Extraction) faz bem aquilo a que se propõe.

Com roteiro de Joe Russo (Vingadores: Guerra Infinita Vingadores: Ultimato), a obra traz Chris Hemsworth (o Thor dos filmes da Marvel) no papel Tyler Rake, um mercenário do mercado negro que aceita a missão de resgatar o filho de um chefão do crime (Rudhraksh Jaiswal) que fora sequestrado por um rival. Logo em seus primeiros minutos em cena, há uma sugestão de um trauma pessoal carregado pelo ex-soldado – que a obra aborda mais à frente –, mas pouco realmente é dito sobre Rake, transformando-o em um personagem quase genérico, mas reforçando o conceito do soldado desumanizado. Com poucas palavras, fica claro que Rake é “apenas” um militar com uma missão, realizando-a não por algum senso de honra ou sentimentos envolvidos, mas pelo dinheiro em jogo. É simples, mas funciona e diz muito mais do que parece.

Portanto, a obra não se encarrega de criar um elaborado pano de fundo para o personagem, optando por inseri-lo logo no cenário principal da trama – a hostil cidade de Dhaka, em Bangladesh – onde o primeiro confronto de Rake com os sequestradores ocorre. A partir daí, o diretor Sam Hargrave mostra a que veio com suas bem elaboradas cenas de ação que trazem desde confrontos físicos à tiroteios e perseguições. Eis aí o grande trunfo da obra, que alça Resgate a um nível acima, oferecendo sequências que lembram as ótimas cenas da trilogia John Wick. A impressão não é à toa, pois ambos Resgate e John Wick são comandados por coordenadores de dublês e aqui Hargrave traz toda sua experiência para a cadeira de diretor, inclusive criando um ótimo plano-sequência simulado bastante longo, mas que condensa muito bem o estilo pancadaria da obra.

Essa tendência de obras de ação comandadas por dublês também é responsável por sequências muito mais interessantes visualmente, pois evitam recorrer a uma montagem com corte em excesso, que muitas vezes atrapalham o entendimento da cena ou simplesmente tornam-se incômodos ou exageradamente artificiais. Ganha-se também uma sensação de imersão que traz a câmera – e o espectador – para dentro da ação, contribuindo para uma boa dose de adrenalina enquanto Hargrave transita com sua lente por entre corredores e casas da cidade, criando momentos parcialmente claustrofóbicos. O resultado é interessante e lembram momentos icônicos como o embate do corredor da série Demolidor – por sua vez inspirado na obra sul-coreana Oldboy – e o plano-sequência dentro do veículo em Filhos da Esperança.

Apesar de não dar muita atenção aos coadjuvantes – aliados ou antagonistas –, existe uma sensação de perigo constante a cada esquina. Logo, embora tenhamos na figura do sequestrador Amir (Priyanshu Painyuli) um vilão, a própria cidade de Dhaka age como antagonista, já que tanto os capangas de Amir quanto a própria polícia do local atuam para tentar impedir que Rake consiga executar o resgate com sucesso. A fotografia de tons quentes de Newton Thomas Sigel (Drive) ressalta a ideia de um lugar desconfortavelmente quente, além de evidenciar os tons escuros de sangue nos trajes de Rake, conforme vemos que o personagem – diferente de muitos heróis de ação clássicos – de fato acaba ferido no decorrer da missão, o mínimo esperado de uma obra que traz um nível considerável de violência – elogiável para os padrões da plataforma.

Chris Hemsworth novamente mostra a que veio e convence no papel do soldado com passado traumático, ainda que faltem algumas linhas a mais no roteiro para que o ator possa explorar mais ainda uma faceta dramática de Tyler Rake. A falta desse desenvolvimento pesa ainda mais à Rudhraksh Jaiswal, que divide o protagonismo com Hemsworth,pois há pouco ali para criar uma identificação além de um diálogo em que ele fala sobre o próprio pai e seus pensamentos sobre “ser filho de um assassino”. No mais, vale ressaltar Nik (Golshifteh Farahani) no papel de uma soldado feminina aliada à Rake. Carismática, a personagem demonstra grande potencial que não é explorado – até poucos minutos já no fim da obra – que poderiam render bem mais.

Destacando-se por seus nomes de peso – Hemsworth e os irmãos Russo –, Resgate é um bom retorno às origens dos heróis de ação, tão cultuados nos anos 80 e 90, mas que perderam fôlego com a ascensão dos super-heróis nos anos 2000. E ainda que não ouse mexer com os pilares que seguram o gênero nos últimos tempos – sendo mais uma obra comandada por um dublê, seguindo uma tendência que tem se mostrado bastante positiva –, rende um bom fôlego à sua distribuidora, mostrando que agora a Netflix tem mais um gênero em potencial para explorar com louvor. 

Originalmente publicado em https://salveferris.com.br/ em 27 de abril de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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