Crítica | Casamento Sangrento

 Crítica | Casamento Sangrento

É interessante como, por vezes, esbarramos em alguma premissa que nos causa a sensação de “Como nunca pensaram nisso antes”. Em tempos em que Hollywood passa por uma reinvenção, com diversas ideias ganhando novas roupagens em reciclagens por vezes interessantes — por vezes nem tanto –, Casamento Sangrento (Ready or Not) foge da obviedade enquanto brinca com convenções do próprio gênero para criar um terror surpreendente — por que não? — e divertido.

Dirigido pela dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (V/H/S), Casamento Sangrento tem seu início no dia do casamento de Grace (Samara Weaving, de A Babá) e Alex (Mark O’Brien, de História de um Casamento). Logo após a cerimônia, a garota recém-casada descobre que precisará participar de um jogo com a família do rapaz, uma peculiar tradição em homenagem às gerações anteriores. O que começa como uma — aparente — brincadeira inocente de esconde-esconde logo se torna uma luta pela sobrevivência quando Grace descobre que irá perder muito mais do que o jogo se for encontrada, pois é o alvo de uma caçada muito mais sinistra do que poderia prever.

A grande sacada da dupla de diretores é ridicularizar os estereótipos através dos exageros no roteiro. A começar pelo cenário da jogatina, uma mansão cheia de passagens secretas e armas do século passado — digna de um livro de Agatha Christie ou um episódio de Scooby-Doo — que possui câmeras de monitoramento e trancas digitais, o que gera uma ótima gag sobre a trapaça no jogo — como alguém se esconde em uma casa cheia de câmeras? — e posteriormente, sobre quão tradicional é a família. Da mesma forma, os intimidantes membros da família Le Domas logo se mostram muito mais toscos e caricatos, sendo a matriarca Becky (Andie MacDowell) a membra mais “normal” entre eles, enquanto os cunhados Daniel (Adam Brody) e Emilie (Melanie Scrofano) por sua vez chamam atenção justamente por não conseguirem ser levados a sério.

Da mesma forma, essa ridicularização cumpre um papel importante conforme o patriarca Tony (Henry Czerny) reafirma diversas vezes a motivação da caça à noiva, dizendo que todos ali pagarão com suas vida caso não consigam cumprir o rito, devido ao pacto realizado por seus antepassados. Ao inserir um elemento sobrenatural como parte da mitologia — mas seguirem como pessoas completamente caricatas –, o filme desafia a expectativa do público por não saber exatamente como encarar aquelas informações. Afinal, existe um fundo de verdade naquilo tudo ou o grupo é apenas excêntrico? A obra inclusive dá margem para explorar uma crítica social bem colocada sobre o conflito de classes, mas opta por não ir por esse viés — o que poderia sim gerar algo interessante, mas cuja falta não compromete em nada a trama.

No centro de toda a loucura, temos a ótima Samara Weaving. Carismática e mostrando várias facetas de sua personagem durante sua noite de núpcias, Weaving mostra uma ótima desenvoltura e flexibilidade no papel. Sua noiva é debochada, engraçada, mas também obstinada. Sua figura, no meio de tantas caricaturas, parece ser a única pessoa real e a atriz funciona como a âncora do filme, roubando a cena para si. Definitivamente um nome a se prestar atenção. Do elenco secundário, o destaque vai para a assustadora tia Helene, interpretada por Nicky Guadagni (Cubo), única membra da família cuja caricatura não se volta ao ridículo, mas sim se aproxima ao arquétipo esperado de um assassino do gênero slasher.

Apesar dessa aproximação, é interessante que o roteiro de Guy Busick e R. Christopher Murphy traga já em sua premissa uma subversão do gênero slasher, como por exemplo o fato de termos diversos assassinos — sem a necessidade de esconder as identidades — e somente uma vítima. E portanto, talvez não seja correto classificar Grace como uma final girl — afinal ela é a única vítima, não a última –, além de outras brincadeiras com os clichês relacionados, como a ideia de que as vítimas que transam são mortas — ao passo que a protagonista passa o filme inteiro com seu vestido de noiva, peça tradicionalmente associada à virgindade — ou a própria lógica de que a protagonista deve sobreviver para descobrir o assassino e sua motivação. Assim, Casamento Sangrento dentro do gênero slasher, acaba se assemelhando à O Segredo da Cabana, obra que à sua maneira também cria uma sátira a fim de subverter uma vertente do terror.

Outro acerto na produção é o detalhado design de produção de Andrew Stearn, que não só usa sabiamente os cenários da mansão para criar tensão — como o pequeno elevador que gera boas sequências levemente claustrofóbicas –, mas para inspirar a curiosidade sobre o que de fato está acontecendo ali — a sequência inicial que mostra uma estante e dá várias pistas sobre o legado dos Le Domas, por exemplo. Além disso, temos a trilha sonora de Brian Tyler que brinca com o tom da obra, mesclando uma melodia leve e quase infantil com tons mais sombrios, vestindo bem o suspense da obra. Vale chamar atenção também para a macabra Hide and Seek Song tocada no início da “brincadeira” — antecipando o verdadeiro jogo — e também para a ótima versão de Love Me Tender.

Descaradamente ridículo e deliciosamente ácido, Casamento Sangrento resulta em uma obra bastante original que traz consigo um gostinho único para os amantes do slasher clássico, mas também brinca com seus próprios clichês — a mansão cheia de passagens secretas, a família disfuncional — para criar algo instigante e divertido sem perder a mão ou se levar a sério demais. Afinal de contas, é só esconde-esconde, certo?

Originalmente publicado no Medium.com em 28 de abril de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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