Crítica | Mulholland Drive

 Crítica | Mulholland Drive

Assistir a um clássico é sempre um exercício conflitante, principalmente se o filme em questão é conhecido e difundido como uma obra-prima. Apesar deste ser um conceito subjetivo, existe sempre a expectativa de procurar o que de tão bom existe em algo tão aclamado, ao mesmo tempo que há um receio em não aproveitar tão bem obras antigas pelo simples fato de que filmes marcantes tendem a inspirar tantos outros diretores contemporâneos que aproveitam conceitos e realizam trabalhos semelhantes. Felizmente, este caso não descreve em nada a experiência de assistir a uma obra de David Lynch, um diretor tão conhecido pelo surrealismo de seu cinema que faz com que cada filme seja único. Mulholland Drive portanto, passa longe de ser uma obra como qualquer outra.

Descrever sua trama é um exercício tão complexo quanto fútil. Isso por que o ideal é que cada espectador busque mergulhar na obra, de modo que interpretações diferentes podem entregar filmes diferentes para cada um — consequentemente, cada um irá optar pela história que lhes cabe dentro de sua leitura da obra. Para fins críticos, cabe dizer apenas que a obra se apoia em três personagens: Betty (Naomi Watts) é uma atriz em ascensão que acaba de chegar à Hollywood e se hospeda na casa de uma tia que está viajando; Rita (Laura Harring) é uma mulher desmemoriada que busca entender seu passado após um acidente de carro; e Adam (Justin Theroux) é um diretor de cinema que enfrenta uma série de problemas pessoais e profissionais.

É possível que parte do público chegue ao final de Mulholland Drive apontando-o como um filme “difícil de entender”. Embora não seja uma obra óbvia, pode-se dizer que também não é o caso daqueles filmes que necessitam de um longo debate para que tudo faça sentido, pois Lynch — que também é responsável pelo roteiro — deixa diversas pistas sobre a verdadeira natureza da trama no decorrer do filme. Para aqueles que gostam de analisar os quesitos técnicos das obras, será fácil identificar características que saltam aos olhos — na brilhante fotografia de Peter Deming, por exemplo –, outros poderão se atentar aos diálogos, que trazem bastante sugestões nas entrelinhas. Nada disso, entretanto, fará com que a obra torne-se auto-explicativa. É necessário atenção — e mais que isso, lógica — para colocar todas peças juntas e “desvendá-lo”, por assim dizer.

Esse exercício poderia tornar-se enfadonho não fosse o fascínio que o texto de Lynch gera logo nos minutos iniciais, com a história de Rita. O modo como as coisas se desenrolam e as pistas deixadas no roteiro — que muitas vezes vem através de personagens secundários que podem ou não ter importância — criam um mistério que instiga o público a buscar respostas. Consequentemente, essa curiosidade é a grande aliada do diretor, pois enquanto o espectador fica cada vez mais ávido por decifrar a obra, Lynch passa a manipular nossas expectativas — como os olhares intensos que Betty e Adam trocam no set de filmagem, que antecedem um momento anticlimático — e cria camadas distintas em sua obra, ora apresentando uma informação e depois sobrescrevendo-a — o confronto de Betty e Rita que se mostra um ensaio de um roteiro após um movimento de câmera, por exemplo –, logo, fica difícil filtrar quais informações são confiáveis e quais são descartáveis.

Não à toa, temos Hollywood como o palco para todo esse jogo de ilusões arquitetado pelo diretor. Diversos momentos e diálogos remetem a sonhos, sejam de cunho onírico — o diálogo na cafeteria — ou de aspiração — como a carreira no cinema –, além da temática da atuação em si. Betty, em mais de uma cena, é mostrada atuando em cima de um texto para um novo filme, essas sequências despertam emoções diferentes na personagem e isso acaba se tornando mais um aspecto do intrigante roteiro: estaria a personagem sempre atuando? Ela é confiável? Ao mesmo tempo, não sabemos exatamente o que levou Rita até ali, ou seja, não sabemos quem ela foi antes da cena inicial ou mesmo se ela está mentindo sobre a perda da memória. Até mesmo a sequência do teatro, onde um personagem diz claramente que é tudo ilusão cria questionamentos se ele realmente disse a verdade. Mas ressalto que nada disso é óbvio como parece ser e todos os questionamentos acabam fazendo sentido no final.

Para aqueles que conhecem pouco — ou nada — da filmografia de David LynchMulholland Drive é uma excelente pedida, pois é um ótimo primeiro passo para conhecer o cinema tão particular do diretor, além de oferecer uma experiência bastante singular para aquele que se permitir embarcar nessa atmosfera tão fascinante.

Originalmente publicado em Medium.com em 13 de abril de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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