Crítica | Pokémon O Filme – O Poder de Todos

 Crítica | Pokémon O Filme – O Poder de Todos

Para uma franquia tão extensa quanto Pokémon, é interessante notar o esforço para reinventar seus próprios conceitos e histórias, até mesmo usando sua própria continuidade como base para que suas novas aventuras representem, de fato, uma evolução. Isso por que em diversos aspectos, este segundo filme da nova cronologia – que se iniciou em 2017 com Eu Escolho Você – cria um espelhamento curioso com o segundo filme original Pokémon 2000, que pode ser observado logo no título de ambos os filmes: enquanto a continuação lançada no começo do milênio trazia o subtítulo O Poder de Um, este se chama Pokémon o Filme: O Poder de Todos (Pokémon the Movie: The Power of Us), um título que antecipa muito bem a proposta da trama.

Apesar da revigorada que a franquia busca com os novos filmes, alguns aspectos familiares retornam aqui, como a estrutura clássica do roteiro que sempre nos reintroduz Ash e seu inseparável companheiro Pikachu, com a dupla chegando a uma nova cidade cujas lendas envolvem pokémon lendários ou míticos que serão parte importante para a história a ser contada. Este é um “clichê” bem-vindo nos longas da série, afinal com mais de vinte anos e quase mil monstrinhos, ninguém espera que o espectador lembre de todos os detalhes da vasta mitologia, cuja expansão segue funcionando muito bem aqui, pois enriquece ao relacionar as criaturas com a criação deste mundo, sua natureza e crenças, além de abraçar os fãs mais antigos ao trazer para a história pokémon clássicos da franquia.

O otimismo de Ash que parece ser fator crucial para suas vitórias também permanece o mesmo, assim como a trama inocente que carrega consigo suas lições, como o valor da empatia e união. Vale destacar este segundo ponto por ser uma ótima característica da obra, uma vez que o roteiro tira o peso da resolução unicamente dos ombros do protagonista. Assim, o clímax opta por um caminho novo, onde a vitória não depende apenas de um escolhido que detém o destino de todos nas mãos, mas da aliança entre os personagens, humanos e pokémon. Para isso, o desenvolvimento da criatura mítica Zeraora é essencial, já que ele não confia em humanos – com exceção da pequena Margo –, imediatamente trazendo um conflito pessoal que se faz necessário dentro do longa, uma vez que a obra não conta efetivamente com vilões.

Essa ausência de antagonistas evidencia um problema da nova cronologia que é a falta de personagens marcantes. Isso por que as novas aventuras são exclusivamente voltadas para a trajetória de Ash e não parecem ter interesse em desenvolver a fundo os coadjuvantes – em uma continuação por exemplo –, mesmo que alguns personagens sejam interessantes. Se esse problema é algo comum dos longas desde sempre, ao menos os companheiros de outrora eram os mesmos da série animada e recebiam o desenvolvimento apropriado para ter peso maior nos filmes, algo que não ocorre aqui nem mesmo com a Equipe Rocket, personagens clássicos que possuem uma ponta e nada mais. A única frustração neste aspecto fica por conta da equipe de monstrinhos do protagonista, que resume-se ao próprio Pikachu, desperdiçando a oportunidade de mostrar um time que refletisse a variedade de criaturas vista no longa, mesclando diversas gerações dos jogos.

Com o surgimento de vários personagens, cada qual com seu arco, a primeira metade do filme possui com uma fragmentação da história que não deixa muito espaço para batalhas pokémon, mas traz uma sequência particularmente divertida de uma “corrida pokémon”. Isso ajuda para que o roteiro dê um bom tempo de tela para todos os novos personagens, mas acaba deixando algumas coisas de lado no decorrer da trama, deixando a desejar na resolução. Além disso, algumas situações criadas soam mais como coincidências para facilitar o ritmo na curta duração do filme. Tão fluído quanto o roteiro é a animação do filme que novamente mescla de forma funcional o CGI com o tradicional 2D para gerar boas sequências. O traço que mantém o estilo de Eu Escolho Você! também é um destaque, pois novamente traz o estilo clássico do anime com um upgrade leve, sem descaracterizar o visual.

Com um resultado interessante, Pokémon o Filme: O Poder de Todos segue realizando uma agradável renovação na franquia, continuando o ótimo trabalho realizado no filme anterior. E embora não seja o melhor dos longas baseado nos monstros de bolso, é um ótimo passatempo que aponta para rumos interessantes no futuro da franquia, expandindo a mitologia não apenas com novos pokémon, mas reinventando sua fórmula clássica sem perder a essência. Uma evolução no melhor estilo.

Originalmente publicado no Medium.com em 1 de abril de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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