Crítica | O Homem Invisível

 Crítica | O Homem Invisível

Embora parte do público tenha certa aversão à refilmagens no cinema, é inegável que alguns contadores de histórias fazem trabalhos incríveis quando possuem a chance de trazer uma releitura através de uma nova ótica. E enquanto outros monstros da universal não tiveram tanta sorte ao serem reapresentados a um novo público, o mesmo não pode-se dizer da figura sem face que inspirou O Homem Invisível (The Invisible Man) de Leigh Whannell, que não apenas traz um tom atual para a obra, mas veste seu roteiro com discussões interessantes que tiram o terror do lugar comum.

Com base na história original do livro de H.G. Wells, Whannell cria uma trama de terror mais voltada para o lado psicológico, optando por evitar que o homem invisível do título seja o protagonista da história. Aqui, a história gira em torno de Cecília Kass (Elizabeth Moss), uma mulher vítima de um relacionamento abusivo que finalmente se vê livre após o aparente suicídio de seu ex, Adrian (Oliver Jackson-Cohen). Porém, ela logo percebe que tudo foi forjado e Adrian ainda representa uma ameaça pois, de alguma forma, conseguiu se tornar invisível. Ao estabelecer um inimigo que não se pode ver – ou mesmo constatar sua existência para reagir – e colocar o público do lado de vítima, Whannel cria na obra a atmosfera do relacionamento de Cecília, causando um incômodo constante logo nos primeiros minutos e que permeia até a sequência final.

Whannell, roteirista que traz no currículo filmes como Jogos Mortais e Sobrenatural aproveita sua experiência com textos que trabalham personagens mentalmente abalados e cria terror ao explorar situações tão cotidianas que tornam-se familiares sem que o roteiro precise se esforçar para isso. Tal como Jordan Peele fez em seu Corra! três anos atrás, onde a aflição era instantânea ao constatarmos a vulnerabilidade do protagonista diante de um ambiente majoritariamente branco, aqui sentimos o desconforto constante devido a culpabilização da vítima e a dificuldade desta em sequer conseguir provar o perigo que ela está correndo. Ao expor sua condição – que o espectador sabe ser real –, Cecília acaba desacreditada como muitos outras mulheres cujo agressores não precisam ser invisíveis para se tornarem isentos de culpa. Assim, o título acaba funcionando como uma ironia: é Cecília quem é verdadeiramente invisível na história, assim como tantas outras vítimas que a sociedade prefere não enxergar.

Há dois aspectos fundamentais para que a obra consiga passar esse sentimento com maestria. Primeiramente, há a escolha mais que acertada de Elizabeth Moss para o papel principal, algo que poderia pôr tudo a perder já que é o trabalho da atriz que conduz a obra. Moss cria uma personagem genuinamente fragilizada sem a necessidade de recorrer à diálogos expositivos, mas transmitindo em seu olhar e voz hesitante toda a dor oriunda do trauma vivido no relacionamento. Temos também a direção de Whannell que aproveita a premissa da ameaça que não se vê para criar tensão ao focar sua câmera em espaços vazios, criando uma incerteza para o público que nunca sabe se está olhando ou não para o vilão. Por vezes, movimentos simples de câmera tornam-se muito mais instigantes, já que é impossível prever o próximo passo da figura invisível. E conforme a sensação de perigo constante se instaura, Whannell pega o espectador de surpresa em vários momentos ao criar sequências de impacto, como a cena do restaurante e a cena de “luta” no corredor do hospital.

Além do domínio de câmera, cabe um elogio ao trabalho de fotografia de Stefan Duscio e à trilha sonora de Benjamin Wallfisch, que funcionam juntos para criar um tom de suspense ímpar na obra. Por exemplo, enquanto os filmes de terror que utilizam de jumpscares para assustar seu espectador costumam aplicar o susto súbito com planos fechados e com pouca iluminação, Duscio aproveita ao máximo os ambientes majoritariamente claros e abertos ao passo que a trilha de Wallfisch eleva a tensão. O resultado causa uma sensação conflituosa por insinuar que algo está para acontecer, mas de forma que não seja possível prever como ou quando, mesmo que tudo esteja se passando a plena vista do público.

Sem trazer para si a proposta de recriar o universo compartilhado de monstros, Whannell permite-se ficar no básico e entrega um resultado intrigante e assustador, voltando-se para o terror psicológico que veste mais do que bem a obra. Ao atualizar O Homem Invisível não apenas nos efeitos visuais – pouco utilizados de fato –, mas inserindo um tema assustadoramente atual em seu texto, o diretor cria um filme de monstro diferente do esperado, onde o monstro é a depressão, o abuso. Monstros estes que, muitas vezes, também acabam se tornando invisíveis.

Originalmente publicado em http://salveferris.com.br/ em 9 de março de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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