Crítica | Sonic: O Filme

 Crítica | Sonic: O Filme

Se existe uma vertente difícil de ser explorada com louvor nas telonas do cinema, são adaptações de videogames. Faz sentido, pois além de serem experiências completamente divergentes entre si, uma das particularidades do videogame é que, diferentemente do cinema, o entretenimento não é necessariamente ligado a um bom roteiro. Jogos cuja experiência são direcionadas pela trama – como The Last of Us, para citar um exemplo – são algo relativamente recente, mas antigamente não era necessário uma história intrincada cheia de reviravoltas e subtextos para gerar um game divertido. E a prova disso são os indubitavelmente clássicos Super Mario e, obviamente, Sonic the Hedgehog.

Acontece que, nas mãos do contador de histórias correto, essa ausência de trama pode se tornar um trunfo em uma adaptação como Sonic: O Filme (Sonic: The Hedgehog). Diferente de obras como Assassin’s Creed e Tomb Raider que sofrem ao precisar condensar horas de jogatina em apenas duas horas de filme, Sonic traz para as telas apenas o necessário: o ouriço azul que dá nome à obra, seu icônico vilão Dr. Robotnik – interpretado por Jim Carrey – e os clássicos anéis dourados do jogo, que aqui ganham nova função para fins de roteiro. Na trama, o personagem usa os anéis como portais para transitar entre diferentes mundos, chegando à Terra ao fugir daqueles que buscam seu poder em seu planeta de origem. Sentindo-se sozinho, ele acaba por desencadear um pulso de energia, chamando a atenção do governo – e do Dr. Robotnik – para a pequena cidade de Green Hill.

Um movimento inteligente dos roteiristas Patrick Casey Josh Miller é justamente fazer com que os anéis tenham uma função narrativa dentro da trama. Dessa forma, quando o personagem se vê na necessidade de recuperá-los, o roteiro consegue fazer uma boa analogia ao game – onde um dos objetivos era coletar o máximo de anéis durante as fases – sem cair na armadilha de transformar o item em um objeto qualquer para motivar a jornada do protagonista – um artifício de roteiro conhecido como MacGuffin –, além de servirem como elemento na batalha final, gerando uma sequência de corrida divertida e visualmente marcante. É também um dos elementos que fazem a jornada de Sonic (dublado por Ben Schwartz em inglês e Manolo Rey na versão brasileira) esbarrar na de Tom Wachowski (James Marsden), um policial de Green Hill prestes a se mudar para São Francisco, em busca de fazer algo mais significativo como policial.

Do outro lado temos Jim Carrey voltando ao cinema após quatro anos afastado das telonas – seu último filme fora Crimes Obscuros – como o Dr. Robotnik, vilão clássico dos jogos. O ator retorna a um personagem cômico com seu carisma tradicional, mostrando-se bastante à vontade no papel e achando um equilíbrio saudável para torná-lo engraçado sem ser exageradamente ridículo, mas também provando-se uma ameaça sem levar-se a sério demais. Além disso, Carrey acaba desempenhando uma função extra no filme, pois ainda que seu personagem funcione para os pequenos, ver Jim voltar a um papel no estilo de sua filmografia noventista – como Ace Ventura O Máskara – traz um ar nostálgico que agrada principalmente aos mais velhos, principalmente se constatarmos que a câmera do diretor Jeff Fowler dá espaço para o ator brincar com o papel – a sequência “musical” é prova disso.

Fowler, por sua vez, não parece querer fazer de Sonic algo além de um entretenimento – por falta de palavra melhor – rápido. Há algumas referências divertidas – como o filme preferido do personagem ser Velocidade Máxima ou brincadeira com o personagem de Vin Diesel em Velozes e Furiosos – e boas sequências de ação – a briga de bar no meio do filme é um dos pontos altos –, mas nada na obra indica uma intenção de entregar um produto mais elaborado. Entretanto, isso está longe de ser um demérito, pois ao manter-se focado no divertimento do público, Fowler evita forçar Sonic em uma direção mais complexa que poderia acabar se perdendo ao tentar criar um roteiro elaborado demais para um personagem tão simples. Fora isso, é de se elogiar que o filme seja tão contido, pois mesmo que sugira uma continuação – com duas cenas pós-créditos –, não parece que ele esteja tentando desesperadamente estabelecer um universo compartilhado.

Após todo o alvoroço da internet, é impossível não falar do design do personagem que passou por um redesenho após os fãs se pronunciarem nas redes sociais logo após o primeiro trailer. Felizmente, o resultado entregue permite que o público reconheça o mesmo Sonic dos games e animações do personagem, com detalhes de seu visual preservado – seus tênis vermelhos, por exemplo –, mas ainda em um gráfico realista com traços expressivos, mas não humanizados demais. O time de efeitos visuais da obra também caprichou para que o ouriço não destoasse nas sequências onde ele interage com os atores, além do design dos diversos robôs de Robotnik que parecem ter saído direto dos games.

Voltado para o público mais jovem sem esquecer dos adultos que passaram horas jogando Sonic desde os 8-bits, Sonic: O Filme é uma obra que brinca com o contemporâneo através de piadas e referências enquanto cria sua jornada própria com base nos elementos clássicos dos jogos, provando que não é necessário seguir a obra original à risca para fazer uma adaptação cativante. Mais importante do que isso, Jeff Fowler entendeu a essência do ouriço azul e a trouxe aos cinemas em um filme que não utiliza a nostalgia como muleta narrativa, mas sim como gatilho nos melhores momentos para criar uma experiência que abraça ao fã, mostrando que ainda há muito potencial para os videogames no cinema. 

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 13 de fevereiro de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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