Crítica | Aves de Rapina (Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa)

 Crítica | Aves de Rapina (Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa)

Algum personagem do cinema já apontou que a loucura é como a gravidade, bastando apenas um empurrãozinho. No caso de Harley Quinn (Margot Robbie), pode-se dizer que a frase foi literal: após se apaixonar pelo Coringa, o vilão a joga nos mesmos produtos químicos que o transformaram no palhaço-do-crime que conhecemos. E isso basta para que o público entenda a origem da personagem, ao menos na opinião dela própria, responsável por contextualizar sua história através de uma simpática animação que abre Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: and the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn).

Pode parecer estranho, mas o fato é que a diretora Cathy Yan faz de Aves de Rapina uma viagem pelo caos orquestrado que é a mente da protagonista. Através de uma montagem esperta que permite que o filme trafegue entre vários estilos diferentes entre si, o público embarca na história de Harley logo após seu término com o palhaço-do-crime. Quando a notícia se espalha por Gotham, todos que a garota já havia irritado acabam surgindo para se vingar, incluindo Roman Sionis (Ewan McGregor) – também conhecido como Máscara Negra –, um dos chefões do crime na cidade. A partir dessa premissa, as outras personagens vão sendo agregadas à trama conforme seus caminhos se cruzam com o dela enquanto ela busca uma forma de se livrar de Roman. 

Por sua vez a dupla Robbie e McGregor roubam a cena, com a protagonista entregando uma performance magistral – impossível imaginar outra atriz no papel – equilibrando o carisma, a loucura e a meiguice de Harley. Já McGregor constrói um Máscara Negra afetado, com uma insanidade à flor da pele que nunca vem à tona verdadeiramente, causando tensão por sua simples imprevisibilidade, mas não destoando de seu personagem – Roman Sionis nunca lembra o Coringa, por exemplo, pois sua loucura é diferente. Fora a dupla, Jurnee Smollett-Bell é quem mais se destaca como Dinah Lance/Canário Negro. A atriz é das poucas que tem a chance de aprofundar mais sua atuação ao explorar conflitos internos da personagem, além de ter momentos ao lado de Robbie e de McGregor que lhe permite explorar facetas diferentes de Dinah, ora vulnerável, ora obstinada.

Ao permitir-se manter simples, a roteirista Christina Hodson faz com que sua obra ganhe ritmo e coesão através de outro elemento: suas personagens. A união de Harley com Cassandra Cain (Ella Jay Basco), Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), Helena (Mary Elizabeth Winstead) e Renée Montoya (Rosie Perez) ocorre de forma gradual e orgânica, sem a necessidade de um personagem extra para justificar a união – como um Nick Fury de Samuel L. Jackson nos filmes da Marvel –, mas sim através uma sequência funcional de acontecimentos. Com Roman – e seu exército masculino de lacaios – sendo uma ameaça constante, representando perfeitamente uma sociedade predatória com as mulheres, não se faz necessário diálogos para que o público entenda que a única forma desse grupo sobreviver é se unindo.

Ao mesmo tempo, Hodson também tem liberdade para trabalhar assuntos mais sérios através de um inteligente subtexto no roteiro. Temas como assédio, relacionamentos abusivos – não necessariamente amorosos – e estupro, por exemplo, surgem de diversas formas ao longo da trama, por vezes de forma implícita, mas nem por isso pouco desconfortáveis. A cena em que Harley alucina com um número musical como Marilyn Monroe demonstra como funciona a mente da garota ante aos abusos psicológicos sofridos, que servem como um gatilho para que ela siga alucinando. São sequências como essa que realçam as sombras do mundo colorido que a protagonista vive – ou aparenta viver. A sutileza do roteiro ao retratar esses temas aproxima o espectador que está disposto a absorver esse subtexto, mas não afasta quem busca apenas o entretenimento de um filme de ação baseado em quadrinhos.

Tal característica é um dos pontos altos de Aves de Rapina, pois mostra como Cathy Yan e Christina Hodson compreenderam o material que tinham em mãos. Desde sua origem, Harley é uma personagem cujas histórias são um prato cheio para abordar temas como esses – seu relacionamento com o Coringa, afinal, é abusivo por natureza – e o modo como o fazem no filme não apenas funciona como narrativa, mas é louvável para os cinemas, pois atesta que a Warner/DC está disposta a trazer obras com tons diferentes do “sombrio realista“, mesmo com o imprevisível sucesso de Coringa. Sem tentar reinventar-se, Aves de Rapina acaba por se tornar ainda mais maduro que a obra de Todd Phillips, ao trazer para si uma relevância – através dos temas propostos – sem abrir mão do que é, ou seja, uma genuína adaptação dos quadrinhos.

Outro aspecto de Aves que contribui para a sensação de assistir a um quadrinho são as sequências de ação, como a cena da prisão ou o confronto com a gangue do Máscara Negra. Diversificadas entre si, tais momentos são pontos altos da obra e soam retirados diretamente das páginas. Por sua vez, o filme encontra sua vertente mais quadrinesca justamente em seu clímax, onde temos a consolidação do grupo de fato. É esta sequência também que evidencia o ótimo trabalho de Chad Stalhelski (diretor da trilogia John Wick) – como coordenador das cenas de ação – e de design de produção da trinca K.K. BarrettRich Romig Julien Pougnier, responsáveis por criar um cenário digno para a luta final. Juntos à direção de Cathy Yan, a equipe constrói lutas realmente divertidas e bem filmadas, com uma ação complexa – são três ou mais personagens lutando ao mesmo tempo –, mas que não fica confusa de acompanhar, além de pontuadas pela ótima química entre as garotas.

Momentos que surgem desse entrosamento – como a cena do elástico durante o clímax – são os que mostram o tamanho acerto que é Aves de Rapina para um público que, majoritariamente, não teria como se encontrar nesse subgênero. Isso porque, para os meninos que leem quadrinhos, é fácil se identificar e escolher seu personagem favorito em qualquer um dos inúmeros Batmans ou Homem-Aranhas, mas o cinema de super-heróis (e os próprios quadrinhos de super-heróis, até pouco tempo atrás) nunca olhou com muito carinho para o público feminino. Talvez por questões mercadológicas, as personagens femininas sempre foram relegadas ao papel de coadjuvantes/namoradas dos personagens principais. Felizmente, há uma mudança visível no status quo do entretenimento, que percebeu que boas histórias serão bem aceitas pelo público feminino, principalmente quando personagens como Harley Quinn, Mulher-Maravilha e tantas outras são bem escritas, sem necessidade de apelar pelo viés sexual – a diferença do figurino da Harley aqui e em Esquadrão Suicida é evidente – e apresentando para uma geração de garotas personagens com as quais elas possam se identificar.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa é uma resposta à altura para um subgênero que constantemente flerta com a saturação. Uma resposta cheia de cores, luzes e glitter, com personagens cativantes e que entrega um bom entretenimento sem deixar de tocar em pautas relevantes. Ao respeitar as origens de sua protagonista, Cathy Yan e Margot Robbie – que além de protagonizar, produz a obra – criam um filme com protagonistas possíveis, que não precisam de super-heróis ou super-poderes, pois são suficientes para se salvarem ao final. Protagonistas que uma nova geração de espectadores e leitores pode se apegar. Tudo isso sem precisar reinventar a roda, apenas optando por uma perspectiva um pouco menos comum. Digno de uma Harley Quinn.

Originalmente publicado no http://salveferris.com/ em 8 de fevereiro de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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