Crítica | Adoráveis Mulheres

 Crítica | Adoráveis Mulheres

Um dos aspectos mais cativantes de uma obra com múltiplos personagens é notar o trabalho bem delineado dos envolvidos – atores, diretores, roteiristas – para fazer com que tudo caiba em uma trama envolvente e coesa durante algumas horas, seja em uma produção cinematográfica ou televisiva – claro, dado o fato de haver muito mais tempo para desenvolver personagens em seriados. E é esta sensação que permeia Adoráveis Mulheres (Little Women) desde seus primeiros minutos, conforme o espectador é introduzido às irmãs March através do texto adaptado por Greta Gerwig, que também assume a cadeira da direção.

Baseado no livro homônimo de Louisa May Alcott publicado em 1868, sendo a sétima adaptação para os cinemas, Adoráveis Mulheres traz a história de quatro irmãs tornando-se adultas na época da guerra civil americana, enquanto o pai (Bob Odenkirk) luta no conflito e a mãe (Laura Dern) lida com as dificuldades do dia-a-dia. Logo, conhecemos um pouco mais sobre suas personalidades e inclinações artísticas – algo que posteriormente mostra seu peso no roteiro ao determinar parte de suas jornadas individuais. Assim, temos Josephine ‘Jo’ March (Saoirse Ronan), a madura escritora, Amy March (Florence Pugh), a pintora apaixonada, Margaret ‘Meg’ March (Emma Watson), a ambiciosa atriz em potencial e Elizabeth ‘Beth’ March (Eliza Scanlen), a tímida pianista.

Com auxílio de uma direção de fotografia precisa realizada por Yorick Le Saux – facilmente o aspecto técnico mais interessante na obra –, Greta conduz o espectador através de momentos distintos da vida das irmãs, com cores quentes e vibrantes na infância simples – mas feliz – e tons de azul e cinza para o período adulto, onde testemunhamos as desilusões da vida adulta surgirem, seja através de amores não correspondidos, da doença, ou mesmo do machismo irrefreável da época, que torna-se uma barreira a ser transposta constantemente. Já Gerwig demonstra um ótimo controle sobre seu texto, impedindo que suas diversas tramas se atropelem, mesmo com as idas e vindas na linha temporal. O resultado não apenas é coeso, mas agradável de assistir, já que o filme não perde o bom ritmo, evitando tornar-se cansativo.

Há também Laurie (Timothée Chalamet), vizinho abastado da família March, que é inserido no terço inicial da obra. É difícil classificá-lo como um interesse amoroso imediatamente, já que o personagem demonstra claro interesse em Jo, mas também desperta a afeição de Amy. Assim, conforme a relação de Laurie se mostra mais íntima com ambas – ainda que uma cena insinue um certo flerte com Meg –, Gerwig sabiamente opta por um desenvolvimento mais profundo do trio sem permitir que o triângulo amoroso torne-se o foco da história, mas sim usando o rapaz para acentuar as diferenças entre as irmãs sem transformá-las em rivais. O mesmo pode-se dizer dos diálogos de tia Josephine (Meryl Streep) com ambas as garotas: Jo resiste à sua opinião sobre dinheiro, casamento e sucesso, à medida que Amy abraça tais ideias.

O trio composto por Saoirse Ronan, Florence Pugh e Timothée Chalamet é também a trinca a desempenhar as melhores atuações na obra, fazendo jus ao texto muito bem construído de Gerwig. Tão cheios de conflitos, cabe elogiar a forma fluída com a qual os jovens atores compuseram seus personagens, em pontos distintos de vida, sem necessariamente apegar-se apenas a um traço de personalidade. Ao incorporar os sonhos de infância e os sofrimentos da vida adulta em suas interpretações, Ronan, Pugh e Chalamet compõem personagens não somente críveis, mas relacionáveis. 

Através de uma direção firme, Greta Gerwig dá vida ao seu Adoráveis Mulheres com fôlego novo, dando-lhe uma personalidade própria e trazendo um ar contemporâneo ao clássico. Seu desfecho, belo por si só, não apenas usa de uma metalinguagem inteligente ao costurar jornada de Jo à da autora Louisa May Alcott, mas também estende a metáfora para a própria diretora – agora muito mais madura profissionalmente –, que consagra-se através de sua arte em um meio dominado por homens. É esse tom de empoderamento que torna o resultado bastante atual, não só explicando como a história sobreviveu através de gerações, mas também justificando com louvor a existência de uma nova adaptação.

Originalmente publicado em http://salveferris.com/ em 19 de janeiro de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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