Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

 Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Baseado em um livro homônimo de Brian Selznick, Hugo é um daqueles filmes que passam batido até que você para e presta atenção na produção. Claro que na época, o nome Martin Scorsese ainda não me dizia muito a respeito de cinema e o filme era apenas “mais um premiado no Oscar”. E na verdade, é bem mais que isso.

A beleza de Hugo vem de um Scorsese completamente apaixonado pela sétima arte. A homenagem prestada vai do óbvio — a vida e obra de George Meliès, a criação do cinematógrafo — ao mais sutil, como a arte do cinema em comparação à literatura, mostrada de forma implícita através das personalidades de Hugo (Asa Butterfield) e Isabelle (Chloë Moretz). Em mais de um momento, por exemplo, o garoto acaba se comunicando muito mais pelas imagens — o sketchbook do pai, o desenho do autômato — do que por palavras, enquanto vemos a garota cheia de longas frases, devaneios e diálogos pontuados por palavras rebuscadas quase sempre.

Embora funcional com as crianças, essa característica de delinear demais seus personagens através do que representam para o roteiro, faz com que Scorsese acabe limitado, mesmo com um elenco razoavelmente grande. Fora as crianças e Ben Kingsley no papel de Meliès, não há nenhum outro personagem da história que soe orgânico, de modo que a narrativa de Hugo soe tão metódica quanto os próprios relógios e máquinas, mostrados a todo momento no filme. Assim, cada uma das figuras apresentadas rapidamente nos minutos iniciais exerce sua pequena função para que a fábula seja contada com perfeição. O personagem de Christopher Lee, por exemplo, é um bibliotecário cuja única função é apontar os corredores e prateleiras dos livros. Sua única cena fora da biblioteca serve para que ele presenteie Hugo com Robin Hood e nada mais.

Apesar disso, Scorsese tem êxito ao conduzir uma de suas obras mais belas, visualmente falando. Ele e o diretor de fotografia Richard Richardson — repetindo a parceria de O Aviador e Ilha do Medo — brincam com as possibilidades da metalinguagem ao explorarem a obra de Meliès, ao passo que criam referências diversas a vários momentos do cinema — como o sonho de Hugo que brinca com a primeira exibição de A Chegada de um Trem na Estação dos Lumière — para não citar também o design de produção de Dante Ferreti, belíssimo e que fora reconhecido ao levar o prêmio de Melhor Design de Produção no Oscar.

Hugo não é um filme perfeito e tampouco representa o que há de melhor na filmografia de seu diretor, mas ainda assim mostra-se como uma obra valiosa. O encanto que vem com ele deve capturar qualquer espectador que tenha um carinho pela arte, que irá sentir em cada frame a paixão transbordante de Scorsese ao realizá-lo. A homenagem fica clara e funciona muito bem. Afinal de contas, é uma carta de amor vinda de um diretor fã de cinema para o público.

Originalmente publicado no Medium.com em 9 de janeiro de 2020.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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