43ª Mostra de SP | Chuvas Suaves Virão

 43ª Mostra de SP | Chuvas Suaves Virão

É sempre interessante assistir uma narrativa no cinema que se constrói por algo além do roteiro e, no caso do argentino Chuvas Suaves Virão (Vendrán Lluvias Suaves), essa sensação se perpetua pelo filme devido a uma série de simbolismos e características que fazem seu enredo chegar às telas do cinema com ares de fábula infantil, além de trazer aspectos de outras mídias que não o cinema.

Longe de apresentar uma premissa inédita, a obra de Iván Fund tem como protagonistas um grupo de crianças que um dia se veem em um mundo sem adultos, que após dormirem no dia anterior, não acordam mais. O diretor faz de sua obra algo lúdico e inocente — para efeitos de narrativa, não haveria diferença se os adultos tivessem morrido ou simplesmente desaparecido –, não recorrendo à violência ou conflitos em momento algum. Em vez disso, ele cria um senso de urgência no espectador de uma forma mais eficaz e menos agressiva: criando uma quest a ser conquistada. Quest, aliás, pode soar estranho para aqueles que não estão familiarizados com jogos de videogame ou role playing game — ou simplesmente RPG –, mas significa uma busca desafiadora por algo, com um objetivo final que pode variar de acordo com o estilo de jogo.

Assim, a trama de Chuvas Suaves Virão é exatamente isso: após notar que os adultos não irão acordar, uma das crianças (Alma Bozzo Kloster) decide retornar à sua casa para encontrar seu irmão mais novo, já que ele provavelmente estará sozinho. Para acompanhá-la na jornada, há apenas seu grupo de amigos — composto por outras duas garotas e um garoto — e um cachorro. Logo outro cachorro e uma garota pouco mais velha se juntam ao grupo, e em meio a isso, simbolismos que novamente remetem ao RPG surgem em tela: ao demonstrar iniciativa em sair do local, uma das garotas carrega consigo uma espada de brinquedo — que não apenas representa a força de uma guerreira nos jogos, mas também a coloca em posição de liderança — e a mais velha, que sabe tratar de pequenos machucados, é referida como possuindo a “capacidade de cura”.

Além destes, Fund traz elementos visuais ao filme que lhe concedem uma atmosfera de fábula. Ao separar sua obra em pequenos capítulos que abrem com a exibição de uma página estática com um desenho e uma frase que remete ao que está por vir, o diretor escancara sua intenção de trabalhar algo lúdico e infantil. Isso se reflete também na trilha sonora — infantil e melódica — e na fotografia branda, de tons acinzentados, inofensiva e bela de se ver. Com isso, a todo tempo Chuvas Suaves Virão faz com que o espectador vivencie a obra através do olhar de uma criança, algo que soa poético, mas ao mesmo tempo, atrapalha o andamento da narrativa. Afinal, uma trama de tal inocência não consegue criar a urgência necessária para seu andamento, pois aparentemente, não existem consequências ou dores neste mundo.

Chuvas Suaves Virão peca por não se aprofundar muito em seus temas, o que torna seu final um tanto abrupto e fantasioso a ponto de destoar do restante da trama — o que pode desagradar a alguns –, mas que deixa algumas respostas no ar, cabendo ao espectador interpretá-las. Ainda assim, é uma obra tocante que se faz valer pelo elenco e história, pois a jornada é mais importante que o destino.

Originalmente publicado no Medium.com em 6 de Novembro de 2019.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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