Há 27 anos atrás, Tarantino já mostrava a que veio com Cães de Aluguel

 Há 27 anos atrás, Tarantino já mostrava a que veio com Cães de Aluguel

A sensação de estar diante de uma obra única se instala no espectador logo nos primeiros minutos de Cães de Aluguel (Reservoir Dogs). Sua introdução que traz um dos momentos mais icônicos de sua filmografia – onde um grupo discute sobre os significados de Like a Virgin de Madonna – é memorável não apenas por introduzir perfeitamente seus personagens e suas personalidades, quanto por evidenciar uma das características mais fortes de Quentin Tarantino: sua maestria com os diálogos. O diretor logo imprime sua assinatura novamente,  quando o som animado de Little Green Bag embala os créditos iniciais junto aos gritos de “Eu vou morrer! Eu vou morrer!”. São 10 primeiros minutos que, por sua vez, ditam o tom de toda uma filmografia que viria a seguir.

O interessante deste filme em particular é que ele é uma obra consideravelmente “pequena” comparado às grandes histórias que um dia seriam contadas pelo diretor. Sua trama não poderia ser mais simples: um grupo de ladrões se reúne sob o comando de um chefão com o objetivo de assaltarem uma joalheria. Impedidos de se conhecerem, eles se tratam apenas pelos codinomes escolhidos pelo chefe, porém no momento do assalto, são surpreendidos por uma emboscada. Com um traidor no grupo – e não podendo confiar em ninguém –, Tarantino conduz o espectador por um “impasse mexicano” de 1 hora e meia.

Mas não é apenas imprimindo sua identidade que Tarantino mostra a que veio. Sua direção é charmosa e não se deixa impedir pelas limitações orçamentárias – o projeto foi realizado de maneira independente pelo diretor – como, por exemplo, a locação principal onde a maior parte do filme é realizada. Embora a ação principal se prenda neste único local, o diretor não permite que seu ritmo decaia, intercalando as sequências atuais com as histórias dos personagens individualmente – mostrando como cada um foi parar no golpe – e criando momentos icônicos como a divertida tortura – sim! – executada por Mr. Blonde (Michael Madsen). Esta inclusive filmada em um plano-sequência sensacional.

O entrosamento do elenco formado principalmente por Harvel Keitel como Mr. White, Tim Roth como Mr. Orange, Steve Buscemi como Mr. Pink – codinome contestado numa cena hilária–, além do já citado Michael Madsen é um dos grandes destaques da obra e com certeza a base principal para que o público possa se envolver na trama, uma vez que nenhum deles é desenvolvido completamente. Assim, Tarantino traz o espectador para o centro do conflito sem que este conheça tudo sobre os personagens, tal como eles próprios não se conhecem. É apenas no decorrer do filme que o diretor compartilha um segredo que muda esse paradigma, potencializando a tensão e encaminhando sua obra para o terço final.

Com elementos que viriam a se tornar característicos de seu cinema, Quentin Tarantino faz de Cães de Aluguel um fascinante exercício de estilo. Diálogos rápidos, uma narrativa não-linear – aqui cabe um elogio à ótima montagem realizada por Sally Menke, que repetiria a parceria com o diretor até seu falecimento em 2010 – e a boa mistura de violência com cultura pop compõem sua assinatura afiada já em seu filme de estreia. Quase três décadas – e com mais sete filmes na conta – depois, Reservoir Dogs permanece tão charmoso quanto da primeira vez.

Originalmente publicado no Medium.com em 30 de Julho de 2019.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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