Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs

 Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs
9

Os anos 80 foram uma época muito significativa para o cinema, presenteando o público com clássicos que até hoje são lembrados com carinho. Mas a TV Brasileira também teve seu grande momento, com atrações e artistas que até hoje perduram na grade televisiva ou, mesmo extintos, tornaram-se parte do imaginário do espectador. Esse último caso se aplica ao palhaço Bozo, importante personagem para a história do SBT e consequentemente, da TV como um todo.

O personagem foi trazido ao Brasil por ninguém menos que Silvio Santos, mas é originalmente americano e devido a isso, o filme adapta seu nome para “Bingo”. Para dar vida ao palhaço, Arlindo Barreto – Augusto Mendes, no filme – foi escolhido. Até então, Arlindo havia feito apenas alguns filmes do gênero “pornochanchada” e era ainda desconhecido do grande público, algo que contribuiu para sua posterior decadência.

O filme possui também versões da apresentadora Xuxa, dos canais Globo e SBT (na época, TVS), dentre outras adaptações, tudo para contar ao espectador a história de Arlindo/Augusto nas telas, da sua ascensão à queda, permitindo-se um tipo de “licença poética” para tornar a trajetória mais fascinante.

Dessa forma, a pseudo-biografia permite-se mais do que contar como Silvio Santos recriou o personagem em terras brasileiras e alçou seu canal para o primeiro lugar de audiência, sendo igualmente um drama sobre o impacto que a súbita fama teve na vida pessoal do ator, não só pelas inúmeras drogas e delírios, mas também pelo relacionamento com os famíliares.

Já no início do filme, temos como destaque a direção de Daniel Rezende. Conhecido por trabalhar como editor em longas como Cidade de DeusTropa de EliteRoboCopA Árvore da Vida, este é seu primeiro trabalho na direção de um longa-metragem e o resultado não poderia ser melhor. Rezende constrói os relacionamentos e traduz visualmente o emocional de seus personagens de forma inventiva e cria cenas verdadeiramente inspiradas, tudo embalado por uma trilha sonora incrível que mistura músicas brasileiras e internacionais.

Um dos grandes trunfos do filme é utilizar a iluminação para exteriorizar o íntimo de seus personagens. A luz dos holofotes, por exemplo, reafirma a necessidade pela fama e sucesso de Augusto e sua mãe Marta (Ana Lúcia Torre em uma tocante atuação), que também fora atriz e agora amarga o peso de ser esquecida. Há também a cena em que o protagonista caminha lentamente para as sombras enquanto a câmera cai lentamente por detrás do ator, determinando ali seu momento de decadencia.

Rezende acerta também ao construir a relação de Augusto e seu filho Gabriel mostrando paralelamente a ascensão de Bingo na televisão, evidenciando o afastamento dos dois ao passo que a fama do palhaço aumenta. Atos como o beijo do nariz e os telefonemas são tratados com atenção, pois aproximam o espectador da angústia do garoto enquanto este sente-se abandonado em função de todas as outras crianças com as quais Bingo interaje.

Dando vida às versões fictícias do palhaço e seu alter-ego, temos Vladimir Brichta, roubando o filme para si com uma atuação intensa e hipnótica. As cenas mais surtadas, como quando é barrado em uma festa ou quando o programa atinge o pico de audiência pela primeira vez, com certeza ficarão na memória do espectador. Alguns desses momentos tornam-se melhores pela excelente química de Brichta com Leandra Leal, que interpreta a diretora do programa.

Sem a preocupação de fazer uma biografia seguida à risca, Daniel Rezende entrega um produto que se diferencia do repertório do cinema brasileiro e destaca-se por sua estética e originalidade, criando um protagonista que ficará marcado na memória do espectador, ao lado de personagens já conhecidos como João Grilo e Zé Pequeno. Bingo não fica atrás do palhaço que o inspirou e torna-se, de fato, o rei das manhãs. E todos devemos saudá-lo.

Bingo: O Rei Das Manhãs, 2017

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Luiz Bolognesi

Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Emanuelle Araújo, Augusto Madeira, Tainá Müller, Pedro Bial, Domingos Montagner

Duração: 118 minutos.

Adam

https://adamwilliam.com.br

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *